21.3.05

As mulheres de verdade

Clarah Averbuck fala sobre os (inviáveis) padrões de beleza

Eu passei bom tempo da minha vida tentando ser magra. Me estragava com toda a sorte de remédios tarja preta, declarava meu amor pelos efeitos das boletas, tirando a fome, me mantendo acordada e me apodrecendo por dentro. Lindo, palmas para mim. Tentando entrar no padrão que eu nunca iria alcançar porque simplesmente não sou assim. Meu corpo não permite que eu seja magrela a não ser com uma vida de privações que eu não estou nem um pouco a fim de encarar. Só agora me dei conta disso. E a questão aqui nem é ser magra ou gorda ou peituda. O problema é o padrão. Eu fiquei achando fotos da Marilyn Monroe pra mostrar pra quem me enche o saco. Não foi ela um dos maiores sex symbols de todos os tempos? Bom, eu estou bem mais pra Marilyn Monroe e Bettie Page do que pra qualquer uma das magrelas e/ou gostosas malhadas de borracha que posam por aí. Elas tinham celulite e ninguém reclamava. Celulite! Antes eu sofria, agora quase me orgulho. Desde que não seja em excesso (eu até uso uns creminhos, confesso), bem, eu não tenho photoshop pra passar na minha bunda. Essa sou eu e fim. Aí eu fiquei olhando as fotos de todas essas pin ups que todo mundo adora e pensei: como se sentiam as magrelas nessa época? Mal. Certamente. Elas deviam se olhar no espelho e cobiçar quadris roliços, coxas, peitos e até uma barriguinha. Era feio ser magra.

Não sei quando o padrão das magrelas entrou em vigor – sim, vigor, como uma lei irrefutável onde, se você não é assim, é errada e tem que entrar na porra do padrão ou fica todo mundo enchendo o saco, “nossa, você engordou, né?” ou “nossa, você emagreceu, né?”. E eles com isso? Elogiosamente ou pejorativamente ninguém tem o direito de ficar falando sobre forma dos outros, sei lá, podem até pensar mas eu me sinto meio invadida quando falam essas coisas. Cada um é bonito do seu jeito. Claro que algumas pessoas podem não se sentir bem com sua forma e quererem se livrar de alguns quilos ou ganhar alguns quilos ou até mesmo botar uns peitos, ora bolas, o corpo é delas e desde que se sintam bem sem ficarem loucas olhando capas de revistas (eu sei porque já fiquei) e simplesmente mirar-se no espelho dizendo: “Olha, esta sou eu, eu estou bonita, me sinto bem e não vou deixar nenhuma besta ficar me dizendo que eu preciso fazer isso ou aquilo”. Não gosta? Sai fora. Meta-se numa festa de modelos de 15 anos e 40 quilos e veja como se sente. E tente conversar sobre qualquer assunto com elas. Sem querer soar preconceituosa, mas tenho certeza de que vai voltar correndo para a vida de verdade, onde as mulheres só são perfeitas nas revistas. E quando são no mundo real é porque dedicam a vida toda a isso. E o resto, as coisas de dentro, os livros, os discos, a vida, bem, pelo menos pra mim o resto é que conta. Descobrir que alguém gosta de mim como sou sem ficar me chamando de “chubby”, fazendo eu me sentir como uma pessoa rejeitada em relação às perfeitas e me deixando triste. Ninguém nunca mais vai me deixar triste ou neurótica comigo mesma. Aprendi a me sentir bem. E fim.

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