17.1.06

Solidão

Finalmente liberadas as gravações que a NASA fez de experiências realizadas com o tenente da marinha John Smith, para testar o comportamento humano em condições de completo isolamento durante longos períodos de tempo, iguais as que o homem terá que enfrentar na exploração do espaço. O Tenente Smith foi escolhido pelas suas perfeitas condições físicas e mentais. Foi colocado dentro de um simulador de vôo com comida bastante para dois anos e os instrumentos que normalmente levaria numa missão, inclusive um computador. Todos os dias, Smith teria que fazer um relatório verbal para que seu estado fosse avaliado. O que segue são trechos das gravações feitas em seus relatórios.
Primeiro dia. “Meu nome é John Smith. Estou ótimo. Passei todo o dia me familiarizando com este meu pequeno lar. Já desafiei o computador para uma partida de xadrez. Acho que nos daremos muito bem. (risadas). Só tenho uma queixa: esta comida em bisnagas não se parece nada com a comida da mamãe... (Risadas). Dois mais dois são quatro. Encerro”.
Uma semana depois. “John Smith aqui. Continuo muito bem. Ainda não consegui vencer nenhuma partida de xadrez deste computador. Acho que ele está trapaceando. (Risadas). Três vezes três é nove. Encerro”.
Uma semana depois. “(Risadas). Meu nome é John maldito Smith. Tudo bem. Um pouco entediado, mas tudo bem. Consegui finalmente ganhar uma do computador, embora ele negue. Vou ter que derrotá-lo de novo para convencer este cretino. Calculei mal e já comi todas as bisnagas de torta de maçã. Agora, só tem maldito limão. Dois vezes três são, deixa ver. Seis. Quer dizer... não. Está certo. Seis. Encerro”.
Dois meses depois. “Vocês sabem quem eu sou. John qualquer coisa. Não agüento mais a arrogância deste computador. Ele não é humano! Insiste que me deu xeques-mates inexistentes e se recusa a admitir que está errado. Tivemos uma briga feia hoje. Dois mais dois são... sei lá. Encerro”.
Quatro meses. “Alô. Tenho provas irrefutáveis que o computador está tentando boicotar essa missão! Ouvi claramente ele dizer alguma coisa desagradável sobre mamãe. Canta Strangers in the night em falsete e não me deixa dormir. Não me responsabilizo pelo que possa acontecer. Estou muito bem, lúcido e bem-disposto. Com licença que estão batendo na porta”.
Sexto mês. “Meu nome é Smith. Maggie Smith. Por hoje é só”.
Oitavo mês. “(Risadas)”.
Nono mês. “Smith aqui. Aconteceu o inevitável. Matei o computador. Estávamos com um problema, onde colocar as bisnagas vazias, e ele fez uma sugestão deselegante. Agora está morto. Não tenho remorsos. Ontem recebi a visita de um vendedor de enciclopédias. Não sei como ele conseguiu entrar aqui. Dois mais dois geralmente é nove. Encerro”.
Décimo mês. “Meu nome é Brown ou Taylor. Um mais um é um. Dois mais dois, não. Iniciei um projeto importantíssimo. Com as bisnagas vazias e restos do computador, estou construindo uma mulher”.
Um ano. “Redford aqui. Sinto falta de um espelho para poder ver minha barba, que está bem comprida. A mulher que fiz de bisnagas e partes do falecido computador ficou ótima, mas, infelizmente, nossos gênios não combinavam. Ela foi para a casa de seus pais. Dois mais dois...”.
Décimo quarto mês. “Minha barba está tentando boicotar a missão! Faz um estranho barulho eletrônico e varias vezes tentou me estrangular. Deve ser comunista. Começaram a chegar as enciclopédias que comprei. Tenho jogado xadrez comigo mesmo e ganho sempre”.
Décimo quinto mês. “Aqui fala Zaratrusta. Atenção. Encontrei pegadas humanas dentro da cabine. Estou investigando. Mandarei um relatório depois. Duas vezes três é demais. Encerro”.
No dia seguinte. “Grande notícia. Há outro ser humano dentro da cabine! Seu nome é Smith, John Smith, mas como o encontrei numa terça-feira o chamarei de Quinta. Ele não fala, mas joga xadrez como um mestre. (Risadas). Talvez tenha que matá-lo”.
Nesse ponto, os cientistas da NASA acharam melhor abrir a cápsula. Encontraram Smith com as mãos envolta do próprio pescoço gritando: “Trapaceiro! Trapaceiro!”.



Luís Fernando Veríssimo

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